Qualidade de vida: será que os humanos sabem mesmo oferece-la aos animais?
Dentro ou fora do habitat natural, os animais precisam de uma série de condições específicas para ter qualidade de vida. Seu histórico de vida e o meio onde está inserido fazem um papel muito importante independentemente de suas capacidades e necessidades instintivas. A pergunta é pertinente tanto para quem é contra animais em jaulas quanto para quem acha correto preservar animais de determinada espécie nos zoológicos. Há pessoas que defendem a idéia de que o animal pode estar vivendo com qualidade de vida e saúde em alguns zoológicos com boas instalações. Outras que são contra o cativeiro, garantem que os animais nos zoológicos estão sob stress constante e infelizes. Proponho uma reflexão sobre os dois lados. Visando a qualidade de vida do animal, podemos ter vários cenários em que os seres humanos podem proporcionar uma vida digna e feliz. Estes cenários podem ser tanto o habitat natural, como um zoológico, ou um cativeiro para reabilitação a natureza. Tirando dessa proposição instalações precárias e mal geridas, vamos imaginar que alguns animais nascem e crescem no zoológico e outros, saem da natureza e vão adultos para um zoológico. Os que nascem lá podem muito bem se tornar adultos saudáveis e felizes. Isso vai depender de como ele foi criado desde a infância. Na natureza ou em cativeiro, todos os animais sociais vão buscar uma “família”, enquanto os animais solitários preferem o isolamento quando se tornam adultos. Mesmo que discordem muitos leitores, fato é que os animais vêem os humanos que convivem com eles como família e não como “donos”. Principalmente quando nascem e crescem tendo contato direto e constante com eles. Keyko (a orca estrela do filme Free Willy) não conseguiu conviver com outros de sua espécie, pois sua família sempre foi humana. A história de vida de Keyko vai responder essa pergunta por si só. Como foi muito admirado e amado por pessoas no mundo todo, Keyko foi vítima de um erro terrível que a humanidade teima em cometer: a falta de comunicação.
Capturado na Islândia com 2 anos de idade aproximadamente, Keiko foi separado de sua família orca em 1979. Se tornou astro de shows em um parque aquático no Canadá em 82 e depois foi vendido para outro parque no México em 85. Finalmente em 92 foi “convidado” a participar do filme Free Willy com locações no México. Keyko sempre teve ótimo comportamento, muito amigável e disposto a aprender brincadeiras novas. Foi por isso que treiná-lo para o filme foi fácil, porque através de brincadeiras e peixes, Keyko nem notou que estava atuando. Depois do filme, o novo astro era venerado por crianças e adultos. Para ele, os humanos eram sua família e amigos. A partir de 94 logo após o primeiro filme, foi criada The Free Willy Foundation (Fundação Free Willy) que conseguiu 4 milhões de dólares de doação da Warner Bros e de um doador anônimo para reabilitar Keiko para a vida no mar aberto. Em 95 o parque aquático do México doou Keiko para The Free Willy Foundation e em 98, após acompanhamento e treinamento exaustivos, ele estava caçando e se comportando como qualquer orca selvagem. Em 98, Keiko foi levado de volta a Islândia para ser reintroduzido aos poucos na natureza. Nos anos seguintes, ainda sob observação e cuidados, ele já saia para o mar e começou a interagir com outras orcas. Mas acabou sendo solta para a liberdade apenas para continuar a procura de humanos. Orcas comuns são seres sociais, na natureza vivem em bandos familiares. Sozinhas, elas procuram pelo bando incansavelmente ou por outro bando; biólogos e naturalistas observadores já presenciaram orcas solitárias fazendo isso e até pararem de caçar e ficarem abatidas caso não encontrem. Pessoas do mundo todo tiveram pena dessa baleia talentosa que nunca conheceu o mar aberto e queriam que ele fosse viver na natureza para ser feliz como as orcas selvagens. Mas Keyko seria feliz no mar? Sem seus familiares do parque? Ongs muito bem intencionadas fizeram todo tipo de manifestação e conseguiram que Keyko pudesse ser reabilitado a vida no mar aberto e então voltar ao mar definitivamente. Para uma orca qualquer que tenha nascido entre familiares orcas e crescido em mar aberto, seria realmente um ato ético e humano. Mas não foi para Keyko. Ele chegou a seguir um barco pesqueiro por semanas, só por ter visto pessoas nele. E fez gracinhas e esguichou água e seguiu o barco o quanto pode. Ia perto de praias procurando pessoas e sempre acabava sendo rebocada de volta ao mar aberto, pois as autoridades temiam que ele machucasse alguém acidentalmente. Keyko morreu sozinho após anos procurando companhia humana, sendo que seus tratadores sabiam que isso poderia acontecer. Keyko se adaptou a caça após anos de “preguiça” de caçar, mas nunca parou de fazer gracinhas quando alguém se aproximava. Como era monitorada por radar, puderam notar que Keyko começou a nadar distâncias cada vez menores e foram até ele ver se estava tudo bem. E não estava. Ele tinha contraído pneumonia. Após anos, ele teve companhia humana novamente. Tentaram medicá-lo e alimentá-lo mas ele acabou morrendo.
O que aconteceu com o Keyko não foi um grande erro, foi apenas falta de diálogo. Quem o conhecesse como conheciam os tratadores poderia ver que Keyko era feliz. Ele era exceção à regra. Se as ongs pudessem ter contato direto com os tratadores talvez tivesse sido diferente, mas foi o parque que negociou com as ongs e fez toda a estratégia para devolver Keyko a natureza. Não houve um momento de informação, de um diálogo sobre Keyko e suas preferências. Houve apenas dinheiro para construir uma área de adaptação no mar para ele, trabalho, planos e estratégias, discussões sobre shows e perda de lucro, espécies ameaçadas que merecem voltar à natureza. Onde foi parar Keyko nessa história? Onde foi parar a preocupação com ele especificamente e não orcas ou espécies em extinção?! Toda orca é feliz no mar, mas não uma orca que precisa de humano em volta pra se sentir feliz. Muitas ongs de proteção animal e ambiental são formadas por pessoas de caráter invejável e disposição para mover montanhas. Mas de boas intenções, o inferno está cheio. É dura a realidade. Muitas vezes as pessoas não sabem o que estão fazendo, não por ignorância, mas por motivos como desespero, pressão, negligência ou desatenção. Quantos não foram os protetores de animais que já foram mordidos, picados, atacados, perseguidos...? Não por falta de preparo, mas muitas vezes pela urgência e enorme vontade de ajudar. As ongs precisam de informação para que isso não aconteça mais. O importante não é discutir quem “matou” Keyko, mas sim aprender a buscar a melhor alternativa para o animal tanto como indivíduo como para uma espécie em sua totalidade. O mais correto seria considerar o caso específico com o qual se está lidando. O trabalho de pessoas que amam os animais deve ser norteado por pessoas que entendam do assunto e não por diretores e autoridades. As orcas selvagens precisam de ajuda como tantos outros animais, mas elas são felizes lá onde estão. E devemos brigar para que elas continuem na natureza, sem medo de caçadores. E voltando a questão inicial, o que faz uma orca feliz? O de sempre. Carinho, atenção, entes queridos. O básico para a vida como comer, morar, segurança, isso é só o básico. É sobrevivência e não qualidade de vida. Ser feliz sim é ter qualidade de vida. Para a maioria dos animais selvagens, essa qualidade só existe na natureza com os de sua espécie. Mas alguns animais são felizes com suas famílias humanas, afinal eles têm sentimentos e personalidade desenvolvidos no convívio familiar. Se a família de Keyko foi considerada menos importante para ele do que a vida na natureza, então seria correto dizer que quando uma pessoa vai morar no exterior ela troca de família e esquece a do país de origem? Não sente saudade, não escreve, nem manda e-mail? E também leva a concluir que os animais fingem que gostam de humanos por comida instintivamente desde o nascimento, mas não são capazes de nos amar, já que não somos da mesma espécie? Soa ridículo, não? Afinal, preconceito é coisa de gente. Seres humanos e animais são capazes de amar. E amar é cuidar, fazer o melhor pelo outro para fazê-lo feliz.
quinta-feira, 11 de março de 2010
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