A sombra da ciência
Não existe dicotomia mais antiga do que a razão e a emoção. Que com o desenrolar da história da humanidade se tornou sinônimo de religião e razão. Ou religião e ciência. Essa dicotomia, no lado racional ou emocional, criou uma sombra sobre os animais. Uma sombra fria, escura, contaminada e indecente. Aquela sombra que realmente temos medo de adentrar. E com certeza existem motivos de sobra para vacilar perante tal sombra. Uma parte dela é causada pelas barras das grades de gaiolas e baias em laboratórios, pelas máquinas, microscópios e pilhas de papéis. Atrás do mundo cientifico, fica esta sombra escondendo animais covardemente violentados, apavorados, doentes e sem chance de uma vida minimamente digna. Aqueles que vão nascer e morrer sem sequer imaginar que outros animais são amados e acarinhados fora destas gaiolas. Eles crêem que somos monstros. E esse terror deles, os cientistas ignoram facilmente disfarçando sua ignorância com razão e necessidade de fazer o bem para a humanidade. Bem este, todo paramentado de aparelhos, métodos e critérios coerentes e racionais. É tanta coisa que eles acabam ignorando o respeito, o valor da vida, o medo infligido e sofrimento. Aqui vão os exemplos mais comuns do que a ciência faz com os animais em testes:
Biotério
Lugar onde são criadas as cobaias para experimentos científicos. Cientistas e encarregados controlam a alimentação, limpeza, temperatura, barulho e cruzamentos entre eles. É uma vida bem estruturada, com tudo acertado para evitar contaminação entre os animais (que atrapalhariam os resultados dos testes, que só são conduzidos em animais com perfeito estado de saúde no estágio inicial). Existem empresas especializadas que fazem testes encomendados de outras empresas ou institutos de pesquisa. São criados, coelhos, ratos, gatos, macacos, cães, porquinhos-da-Índia, vacas, porcos, cavalos, entre outros. Alguns são modificados geneticamente através de várias cruzas específicas para que desenvolvam uma determinada doença e assim sirvam ao propósito do teste. Por exemplo: 100 espécimes para testar a eficácia de um medicamento contra o câncer. São criados então 100 ratos com tendência altíssima de desenvolver câncer (o tipo de câncer que ele irá desenvolver também pode ser manipulado geneticamente). O rato mais caro já encomendado para testes custou em torno de milhares de dólares cada exemplar, devido à dificuldade em manipular as cruzas até chegar ao resultado fisiológico desejado. Tudo isso para fazer testes. Se pudéssemos impor as leis humanas para defender as cobaias, cientistas que conduzem este tipo de teste poderiam ser incriminados por exploração de incapaz, cativeiro, escravidão, tortura, abuso de poder, formação de quadrilha e segue uma lista sem fim de crimes. Hoje existem leis que regulamentam a qualidade de vida da cobaia, sua morte deve ser feita indolor e rapidamente via eutanásia, toda sua vida deve ser monitorada para otimizar alimentação, limpeza e stress zero, só pessoal autorizado entra no biotério para evitar acidentes, etc. Infelizmente essas belas regras, como todas, ainda são quebradas com grande freqüência.
Método científico
O número 1 da lista de racionalidade, segurança e qualidade de nossa razão como seres preocupados com bem-estar. Sem o teste científico qualquer produto de utilização e consumo humano é perigoso e contra-indicado. Ele comprova níveis aceitáveis ou ótimos de todo tipo de composto químico, produto finalizado para consumo e substâncias que podem afetar o meio ambiente e saúde pública. Consiste em testes laboratoriais padrão num primeiro nível, seguido de testes em animais e por fim em voluntários humanos (que pode ser uma etapa excluída ou os humanos voluntariamente aceitam fazer o teste, por exemplo, para alguns produtos da indústria coméstica e medicamentos experimentais contra doenças ainda sem tratamento 100% eficaz). Os animais não têm a opção de voluntariar. Quando o animal cobaia faz esse tipo de teste é induzida à doença a ser tratada nele, salvo um ou outro caso de empresas que contataram veterinários para conseguir animais com a determinada doença, para testar o medicamento mediante permissão do proprietário do animal. Isso sim seria humanitário e correto, mas é exceção à regra, quase é feito por dar trabalho e o nível de comprometimento com o "cliente" é altíssimo.
Teste dermatológico
O animal é escolhido conforme sua pele tenha sensibilidade ao produto químico e semelhança fisiológica com a pele humana. O químico é aplicado durante um determinado período de tempo (24horas, 72 horas, depende do procedimento adotado) e as reações são acompanhadas visualmente, exames de sangue e biópsia para análise laboratorial. Este teste é feito para todo químico que pode entrar em contato com a pele humana, seja ele cosmético, fármaco, produto de limpeza, comida, etc. Em outras palavras, é para avaliar se o seu detergente é alergênico, se seu sabonete causa coceira, se o corante da comida causa reações alérgicas, se o batom é cancerígeno e por ai vai.
Toxicidade
O mesmo procedimento de aplicação dermatológica ou para exames mais profundos (ingestão, inalação, aplicação intravenosa ou intradérmica, contato com mucosas ou olhos). Neste caso a dosagem é feita controladamente até que a reação seja tóxica, leve o animal ao quadro mais patológico possível e óbito (quando o químico tem esse nível de toxicidade). Isso serve para comprovar alergias, doenças, efeitos colaterais e graus de periculosidade. São feitos estes testes para todo tipo de químico, sejam para produtos de limpeza, cosméticos, alimentos, bebidas, fármacos, todo tipo de composto químico. Seguro para nós, tortura seguida de morte para os animais.
Testes psicológicos
De longe os mais cruéis que existem. O animal é posto sob condições de stress diversas para testar sua capacidade de reação e mudanças de comportamento a curto ou longo prazo. São mais utilizados os macacos para tais testes, pois são mais parecidos com humanos no quesito racionalidade. O desenvolvimento destes testes resulta em animais cada vez mais traumatizados, neuróticos, medrosos, raivosos, doenças psicossomáticas, auto-mutilação, retardamento mental, problemas neurológicos, agonia do pior tipo. Alguns testes já realizados: retardamento mental por isolamento em filhotes normais, déficit de aprendizado e desenvolvimento por uso de drogas, efeitos de sons altos sob animais cegos, superação de episódios traumáticos, superpopulação e canibalismo, desenvolvimento da agressividade em filhotes normais. A maioria dos animais para este tipo de este é normal e de temperamento calmo. Eles são induzidos aos comportamentos e deficiências aos quais o teste requer para ser desenvolvido, ou seja, são mutilados (no caso de cegueira e amputação de membros). Eles também ficam ligados aos aparatos de eletroencefalograma e todo tipo de neuro-parafernália para medir seus impulsos nervosos e reações fisiológicas. Isso pode também resultar em mutilações na pele, abertura do crânio, retirada de partes do cérebro e etc. Em raros casos, cães e gatos com algum distúrbio psicológico são convidados a participar de terapias e tratamentos com drogas experimentais, voluntariamente, para tratar um problema já existente.
Vivissecção
Do grego, ato de seccionar (cortar) um ser vivo. Na teoria, a vivisecção seria desde cortar uma unha, retirar uma biópsia para exame até a extração de um órgão. Não necessariamente é usado neste significado, mais comumente conhecida como ato de experimento científico. O mesmo serve para a palavra dissecção e dissecação (cortar). A palavra sozinha apenas remete ao procedimento, podendo ou não significar sofrimento - por exemplo, um cachorro com problema de pele precisa fazer exames de biópsia e raspagem para diagnóstico e medicação. Essa palavra causa calafrios em muitos, mas em realidade nem é tão má.
Experimentação educacional
Para fins didáticos os estudantes de escolas e universidades podem ver em um cadáver real as estruturas do corpo dos animais. Podem ser usados diversos animais ou apenas um, isso depende da instituição de ensino e nível do curso. Obviamente existem modelos muito bons para esse tipo de estudo feitos em resina, silicone e outros materiais, que podem substituir muito bem o cadáver. Já nas universidades de medicina e veterinária o procedimento é muito outro e se faz necessário trabalhar com animais vivos. Cada instituição deve se preocupar com o teor de seu curso e seguir os padrões como acima mencionados ara biotério. Tratar um animal em necessidade é bem diferente de provocar nele um mal para então tratar. Dar a vida na mão de um inexperiente para que "treine" sendo óbvia a chance de insucesso é sadismo.
E como este texto não se propõe a falar de outros testes ou se aprofundar nos acima citados, chega agora a sua conclusão. O ser humano, tão racional e criador da ética e moralidade, explora outro ser indefeso e não considera isso imoral. Mesmo que eles não possam falar ou escolher, nem ao menos lutar para se salvar. Mesmo à força, com violência, não tem problema, não é crime porque não é uma pessoa. Qual razão seria limpa e decente o bastante para tirar a culpa de causar dor e morte? Com o mesmo corte que se corta uma rã, se corta um pescoço humano. A ciência pode até defender a razão, mas na verdade defende o dinheiro. Se existem outros métodos mais caros e demorados, então o uso de animais não seria apenas para economizar e demorar menos tempo para atingir um resultado? Sem perigo de arriscar uma vida humana e causa uma má imagem ao pesquisador ou instituição? Se tantas pessoas sofrem de doenças sem cura ainda, se submetem a todo tipo de tratamento estético para ficarem bonitas, então para quê testar em seres que foram abençoados com a saúde perfeita? Já que demora encontrar estas pessoas e firmar termos de compromisso, não vale a pena "ajudá-las". Melhor usar animais que não tem o que assinar, não vão te processar e o envolvimento emocional é zero. Isso é tática administrativa, isso é lucrativo pela economia feita. Claro que não há espaço para ética quando não há dinheiro para bancá-la. Mas o que poderia custar mais caro que seu caráter? Dá mesmo para tantas pessoas acreditarem que não é crime torturar e matar quando a vítima é um animal? Voluntariamente o ser humano ignora a dura realidade de tantas faces da sociedade, a exploração animais é só mais uma. Numa sociedade em que o respeito pelas pessoas está em baixa, que se dirá de entender que um animal sofre (nem necessariamente respeitá-lo, apenas conseguir se por em seu lugar e ver seu sofrimento).
O patamar ético de alguns humanos mais elevados e sensíveis não permite mais ignorar os crimes da humanidade. Não se pode evitar que um e outro acorde e reaja contra o que é errado. A humanidade sempre foi assim, aos poucos unindo novos grupos que quebram confinamentos, algemas e libertam mentes. Essa é a luta pelos animais. Um dia foi errado escravizar um negro ou índio. E no futuro, será errado fazê-lo com animais. Corrigindo, será errado juridicamente explorar um animal, pois eticamente sempre foi e sempre será errado explorar qualquer desfavorecido, seja ele animal ou não.
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Karin Yoshitake
segunda-feira, 5 de abril de 2010
A sombra da ciência
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