segunda-feira, 5 de abril de 2010

Humanitário?

Muitas pessoas acreditam que o confinamento de animais é a pior dos crimes cometidos contra animais. Considerando que a maioria das pessoas não conhece a realidade do acontece com eles em geral, pode-se afirmar que essa não é a pior. É só mais um crime, igualmente hediondo.

Confinamento é praticamente uma condição básica da maioria dos animais que não vivem em condição selvagem. Pode ser numa jaula, gaiola, quartinho, quintal, baia, use sua imaginação. Gado criado para abate até pode ser criado pastando, mas o gado leiteiro vive confinado em baias do tamanho da própria vaca, ligados dia e noite na ordenhadeira. O mesmo acontece com todo tipo de galináceo, seja para consumo ou produção de ovos. Vivem amontoados, mal tem espaço pra pisar no chão. Coelhos também são criados assim, sem poder andar sequer. As galinhas ficam em gaiolas que "acomodam" suas cabeças pra fora com acesso ao comedouro e o corpo sentado na grade, com as patas penduradas para fora. A vida toda. Toda não, a parcela de vida que podem por ovos com mais saúde, antes de morrerem como se não fossem nada. Toda criação de animais de exploração humana vivem nesse tipo de condição. Confinados para manter o controle da produção, muitas vezes sem poder se exercitar minimamente acabam tendo atrofia muscular, ficam neuróticos, se auto-mutilam, a saúde se compromete tanto que vivem menos da metade da expectativa. E os criadores consideram tudo isso, pra explorar melhor e com segurança para que o produto saia com qualidade. Não pensando em sequer um mínimo bem-estar ou qualidade de vida.

Nosso consumo é mais importante do que nossa moral. Se o ser humano valorizasse mesmo sua condição de racional, não se permitiria esse tipo conduta negligente aos valores tradicionais. Não é errado matar, é crime! É pecado, é hediondo, é o pior que um ser humano pode fazer. A tortura que preceder morte é considerada agravante extremo, morrer é bem diferente de sofrer até a morte. Mas quem põe um bife no prato não quer nem saber se "aquilo" já foi vivo, que se dirá se imaginar o sofrimento "daquilo". Chama-se abate humanitário aquele promovido com mínimo de sofrimento, cuja vida do animal é mantida com qualidade até o dia de seu abate e a exploração dele em vida é feita sem excessos, respeitando a possibilidade dele. Se a carne viesse para o prato após uma longa vida de cuidados, qualidade, saúde, acomodação e segurança adequados, teríamos então o que chamam de abate humanitário. Se fosse possível aproveitar a carne dos animais que morreram naturalmente seria ideal, mas muita gente acharia a carne de má qualidade, doente, demoraria demais para ter um bife e a indústria não pára. Em realidade, o animal vive poucos anos da fase adulta, só atinge o auge da saúde que pode ter, vai para o corredor da morte muito antes de ficar velho (claro, se não "estraga" a carne!). Morrer no auge da vida é humanitário? Ter veterinário, pasto, liberdade, abrigo de intempéries e de repente perder tudo é humanitário? Nascer comida e morrer comida é humanitário? Pelo visto, não importa o que querem dizer com humanitário, definiram esta palavra para o tipo de tratamento sem pensar no seu significado. Se ajudar uma criança doente, um carente, sem teto, criminalizado é serviço humanitário, fica estranho chamar também de humanitário esse tipo de tratamento. Que tira ao invés de dar. Matar sem dor é eutanásia, não abate humanitário. Tanto que se chama abate, não eutanásia. Essa sim, feita com anestesia em casos de sobrevida miserável, em vista do fim do sofrimento causado por enfermidade é humanitária. Manter a qualidade da carne? Isso é desculpa não argumento.

As florestas nativas do Brasil são reduzidas a pasto para que estes animais vivam "dignamente". Vão morrer como os que vivem em baias pequenas, mas vivem soltos, pastando a pouca vida que podem viver. Essa vida livre que é tirada deles na verdade também é tirada da riqueza natural do país. Quantas espécies entrando em extinção, quantos habitats destruídos em nome de um abate humanitário... O ser humano que faz isso deveria ser denominado besta. Pois o animal é sensciênte, a besta é uma figura simbólica animalesca, representante do Mal. O ser humano é um ser racional, sensciênte e principalmente ético. Quem faz esse tipo de coisa não sabe o que é ética, não raciocina, apenas pensa. Pensa em si e no lucro. Esse não é o legado que os gênios da humanidade, grandes pensadores, grandes revolucionários quiseram nos deixar. E na hora de diferenciar humanos de animais é nestes seres humanos que se pensa. Bom, pode até ser, mas eles são eles. A massa não se parece com eles. Nem os "patrões" dessas massas. Eles são mais parecidos com os animais. Senscientes, adaptados, observadores de seu meio, estudiosos que buscam soluções. Como os mais fortes da savana, da floresta, do deserto.

De todo modo, humanitário ou não, com ou sem confinamento, animal nenhum deve ser explorado. Nada justifica o uso da palavra humanitário para qualquer tipo de exploração animal. A não ser que a ética tenha se reduzido a ética humana e agora exclui as outras formas de vida, ao ponto que tudo que se refere à humano, seja superior ao ponto de permitir crimes contra outros seres. Isso iniciaria uma discussão sobre especismo; o preconceito contra espécies. Mas fica pra outro texto...


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Karin Yoshitake

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