terça-feira, 15 de junho de 2010

A culpa não é minha!

É impossível não achar bonitinho um cachorrinho que abana o rabinho feliz olhando pra você. Mesmo um vira-lata de rua feinho que seja. Mas é super fácil subir o vidro do carro quando uma criança suja e remelenta se aproxima com um pacotinho de balas pra por no seu retrovisor. Mesmo assim, as pessoas têm a linda tendência de achar que a criança é mais digna de pena do que o cachorro por ser humana. E na hora de dizer que existem direito humanos, que o certo é realmente salvar essas pobres criaturas das ruas, não lembramos que morremos de medo de trombadinhas. E na hora de dizer que você tem que mudar e o cachorro não pode ir também, abandonar na rua ou dar pra qualquer pessoa sem saber se vai cuidar ou não é facílimo. Muito humano mesmo, corretíssimo.

Se uma pobre onça aparece morta no noticiário porque o fazendeiro não quis que ela continuasse matando suas cabras ou galinhas, todo mundo morre de pena. Que crápula! Ignorância! Mas ninguém pensa que o cara com certeza depende dessas bichinhas pra viver e a onça pode oferecer prejuízo financeiro e perigo à sua família. Ninguém pensa que o crápula é o cara que loteou e vendeu esse terreno para o afzendeiro em área de proteção, onde a onça sim deveria morar e não a cabra. Nem o fazendeiro e sua família. Ninguém lembra do político que prometeu, deu cesta-básica, falou palavras bonitas. O fazendeiro é um coitado ignorante e a onça... tadinha! Mas alguem se pergunta quem é o responsável por essa família ter ido parar na área da onça, pensar duas vezes em votar neste ou naquele vereador, deputado ou prefeito? A culpa da morte dessa onça veio lá de longe, da lei que não funciona, do grileiro safado, do poder público corrompido que faz acertos com corretores, coronéis e fiscais. Mas ai normalmente se ouve: Ah! Me poupe, não gosto de política! Não sei da vida desse candidato, só acho ele "menos ruim". Ou ainda: votei no partido, nem sei no que vai dar! E isso não te põe lá atrás na fila dos responsáveis indiretos pela morte da onça? Pela miséria de vida que esse fazendeiro tem? Não, né! Afinal, o que você tem com isso? Você não sabia, logo, não tem culpa! E dane-se a onça, o fazendeiro, as cabras... Esses caras se enchem de grana porque "você não tem culpa" sabia?

É possível conhecer tudo e todos, formar opiniões coerentes e informadas sempre? Não. Mas isso então é desculpa pra nem tentar? É tão duro assim entrar num site buscando informações? Assistir mais noticiário que novela? Ou pelo menos um pouco mais? Ler um parágrafo de jornal em vez de uma revista feminina inteira? Só porque as coisas podem ser difíceis temos a desculpa de fazer corpo mole, essa é a verdade. Isso nos torna humanos, o erro. Erro não, a cagada mesmo. Porque se categoriza entre os excrementos atitudes como auto-indulgência, auto-piedade, fingir-se de morto... e principalmente ignorar pra não ter que pensar ou ver. Pois eu te digo que quando um vira a cara pra não olhar, outro fica quase vesgo de tanto olhar pra pensar o quê fazer com a sua cagada. E quando isso não acontece, fica lá seu excremento, apodrecendo, fedendo e incomodando. Tipo o seu voto que você jogou no lixo porque não gosta de política. Ah, não! Desculpe. Porque você "vota no menos pior". Ele tá apodrecendo em algum lugar, incomodando muito alguém que nem sabe porque raios tem que aguentar SEU excremento. Não só o seu, mas o de todos os vários vocês que podem estar lendo isso agora. É uma montanha enorme de lixo que afoga a dignidade da onça que só precisa de um "mato", das pessoas que só precisam de uma "terra" e um dia, tomara, vão chegar em você. No teu mercado que ficou caro, nas contas de luz e água, na passagem do ônibus, na gasolina do carro, nos sem-teto que se tornam drogados ou bandidos e te espreitam. Enquanto uns pensam que não merecem isso, outros pensam que podem MUDAR isso.

Então nessas eleições, larga um pouco a vuvuzela e entra no google antes de votar. Ou anule seu voto, consciênte de que quem não ajuda, não atrapalha. Já é um passo!

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